Se for para falar de lenda, renasça das cinzas como Fênix
 

 
     Há muitos anos um fiel guardião das florestas brasileiras segue com suas rondas noturnas na imensidão das matas. Norteado apenas pelo distante brilho do luar, ele zela pela tranquilidade dos animais que descansam ali. O valente escudeiro da natureza, moleque, esperto e travesso, afasta qualquer perigo proporcionado por caçadores sem coração. Estes homens de mente vazia aniquilam a fauna sem o propósito da subsistência. Com suas espingardas disparam contra tatus, lagartos ou qualquer coisa que se mova.
     Curupira, o menino de pés descalços e virados para trás, segundo o folclore, é o protetor das belezas naturais, as quais já deveríamos ter a consciência de cuidar melhor. Porém, a ignorância do “homem branco”, no pedestal de suas tradições, nos remete a uma era de individualismo e preconceito. A criatura, que por onde passa deixa pegadas ao contrário, exposta a tantos riscos e batalhas, um dia sucumbiu às chamas de um incêndio causado em seu habitat.
     Era uma tarde de sexta - feira quando recebi a triste notícia: o Curupira Rock Club havia sido consumido pelo fogo. De imediato pensei em crime, já que o pessoal rock, de Guaramirim, vinha expondo o descontentamento da sociedade e autoridades locais com a lendária casa de “shows do diabo”, como eles assim preferem mencionar. Menos mal que tudo se deu por uma simples lâmpada esquecida acessa anteriormente.
     O fato é, e neste caso não poderia ser diferente, que como todos os acontecimentos marcantes merecem séries de boatos, este não ficou para trás. Um E - Mail que afirmava o fim definitivo do clube circulou na Internet, informações falsas. O clima na comunidade rock brasileira foi de desespero, pois como pode o maior templo do estilo, no Brasil, ter suas atividades encerradas desta forma? Por um instante nos sentimos órfãos.
     A verdade é que o eterno palco do rock brasileiro é tão lendário quanto à lenda a qual foi inspirado o seu batismo. O Curupira Rock Club, assim como o Curupira protetor da natureza, segue na contramão, com passos contrários. Nada vai mudar! A sociedade que caça a legião de camisas pretas, “invasora” da pequena Guaramirim, vai ter que baixar suas armas e quebrar seus pré julgamentos. É mais fácil jogar junto e não contra esta turma que tem mais rock a sangue nas veias.
     O fogo e a destruição são apenas resultados de tantas invocações demoníacas exercidas por músicos doidões, das partes mais distantes do mundo, que já passaram por ali. Serviu para aquecer ainda mais o retorno da música àquele lugar fantástico. Tão cercado de desconfianças, místico, natural e enigmático que só podia ter o nome relacionado a uma lenda.
     O Curupira Rock Club, como o folclore brasileiro que pertence a seu povo, é patrimônio da comunidade rock ao redor do mundo. Siga seguro protetor da boa música e das matas, porque quem curte o verdadeiro rock só abaixa a cabeça na hora do headbanging.

* O autor é jornalista e vocalista da banda Punk Hardcore Anti - Heróis
 
Por Marcos Marcellus Holtz
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