Um dos exemplos no cenário Thrash Metal nacional é a Violator. Os jovens bangers erguem a bandeira Old School e mantêm viva a chama e fidelidade ao estilo. Além disto, fazem uma crítica muito construtiva em relação ao underground, afirmando que quem quer uma cena forte, tem que lutar por isto. Confira a conversa com Pedro Poney Ret (baixo e vocal).

 
01. Saudações Thrashers. No sul, temos pouco acesso aos materiais e informações sobre vocês. Por este motivo, solicitamos uma apresentação.
Pedro Poney Ret:
Opa, e aí pessoal do All The Bangers! Desde já agradeço pelo espaço e pela entrevista, valeu. Então, o Violator surgiu em 2002, quando quatro moleques loucos por Kreator, Slayer, Forbidden e esse tipo de coisa, pegaram os instrumentos que já tocavam muito mal e resolveram começar uma banda para se divertir, fazer Thrash e andar juntos. Seis anos se passaram e o espírito continua o mesmo. Vieram discos, turnês por outros países, shows bem insanos, mas o Violator ainda é, basicamente, amigos que gostam de fazer Thrash.

02. Recebemos o "Chemical Assault" e ficamos surpresos com a sonoridade e a produção. Como foi o processo, dos ensaios à prensagem, deste material?
Pedro Poney Ret:
Obrigado pelos elogios. Da preparação do disco à gravação estar completa, foi mais de um ano de nossas vidas desperdiçadas em cima daquelas dez músicas (risos). Por ser o nosso primeiro full-lenght, gostaríamos de fazer algo bem especial e sou totalmente satisfeito com o resultado. O álbum foi totalmente feito sob a ética do DIY, ou faça - você - mesmo, da gravação à arte final. Tivemos o controle total de todos processos de produção e foi tudo feito por nós mesmos e por amigos, como o pessoal do Orbis Estúdio. Cada detalhe de cada música foi pensado, fazíamos ensaios enlouquecedores treinando com metrônomo e coisas do tipo. No final das contas, acho que todo o trabalho valeu, o álbum teve uma aceitação maravilhosa, está sendo lançado em vinil e em CD na Europa e nos permitiu fazer uma turnê por nove países da América do Sul.

03. Vocês são relativamente jovens e executam um estilo musical surgido em uma época em que vocês não viveram ou eram crianças. Como começou o gosto pelo Thrash Metal?
Pedro Poney Ret:
De fato, o Thrash Metal surgiu na década de 80, mas eu não acredito que estilo musical nenhum pertença a alguma geração ou seja propriedade de uma época. Se fosse assim, seria complicado alguém tocar Jazz ou fazer Punk Rock hoje dia, não faz muito sentido pra mim. O interesse por uma sonoridade mais Old School começou de maneira bastante natural em nossas vidas. Éramos moleques no final da década de 90, pegamos aquele boom do New Metal e simplesmente não suportávamos toda aquela sonoridade, comércio e modismo envolvidos com aquela cena. Acabamos indo buscar o que era o contrário daquilo tudo e a partir dos primeiros discos do Metallica, Slayer e Sepultura, começamos a descobrir todo o mundo mágico de sebos de discos com vinis do Annihilator, Kreator e Whiplash. E assim acabamos com nossas vidas (risos).

04. Boa parte das bandas nacionais dos anos 80 cantava em português. Nunca houve interesse em gravar em nosso idioma?
Pedro Poney Ret:
Eu acho muito legal ouvir bandas que cantam em português, principalmente as que fazem isso de uma maneira não-brega, mas não acho que deva ser regra. Na verdade, regras, padrões e Metal são coisas que não convivem bem juntas, acredito. A gente nunca fez nada em português, porque eu tenho uma dificuldade danada em escrever e principalmente cantar na nossa língua. A articulação das palavras é diferente, então fica meio complicado fazer o tipo de Thrash que a gente quer fazer cantando em português. Acho que é um grande desafio cantar em português e admiro várias bandas que assim o fazem, mas pro Violator eu não vejo funcionando. E acho que isso não precisa ser um problema, acho interessante a maneira como o underground quebra as barreiras de país, etnia, classe, então existe um sentimento ali que é mais forte do que a língua que se fala.

05. No geral, bandas de países que falam espanhol cantam em seu idioma oficial. No Brasil, isto quase não ocorre. Por que?
Pedro Poney Ret:
Eu não saberia responder essa pergunta. Só acho que isso não precisa ser necessariamente um problema. Underground não tem pátria, não tem nação, nem todos no Violator são brasileiros e nós nunca tivemos nenhum tipo de inclinação nacionalista. Eu acho legal cantar em português porque a letra e a mensagem, que devem ser coisas sim muito importantes, fica mais clara. Eu tento remediar isso um pouco fazendo comentários em português das nossas letras. Também acho que tem estilos que o português encaixa melhor, como Speed Metal ou Crust.

06. Nosso país apresenta dimensões continentais e muitas vezes não temos acesso aos materiais de bandas de outras regiões. No Distrito Federal, que outros nomes merecem destaque? Quanto ao sul, o que vocês conhecem do nosso cenário?
Pedro Poney Ret:
A Internet é um veículo interessante nesse sentido, diminui um pouco as distâncias. Quando você diz sul, você se refere ao Rio Grande do Sul, ou a região Sul? Da região sul, eu gosto muito da cena que está surgindo no oeste Paranaense, de bandas como Hate Your Fate e Hell Bullet. No Paraná também tem uma cena de Grind legal em Maringá e muitas boas bandas em Londrina. No Rio Grande do Sul, não tem como não conhecer a cena de brutal Death Metal que explodiu no começo dos anos 2000, com Nephast, Rebaelium e outras. Mas eu devo destacar mesmo são duas bandas de Thrash daí do seu estado: o Leviaethan, que a gente gosta muito, eu tenho os vinis e tudo, e o Sacrário, banda que estava fazendo Thrash Metal numa época em que o estilo estava praticamente morto e é muito boa.

07. Em "Violent Mosh", a formação era em quarteto. No "Chemical Assault", trio. Na Home Page, percebemos novamente um quarto elemento. Quais os motivos das entradas e saídas?
Pedro Poney Ret:
Na verdade, foi uma saída e uma entrada. Juanito Tododoido que tocava com a gente desde o começo e sempre será um irmão pra nós, teve que ir morar na Argentina para completar os estudos e onde ele tem uma estrutura de vida bem melhor, já que toda a família dele é de lá e tudo mais. Passamos oito meses como Power trio, época da gravação do "Chemical Assault", e resolvemos seguir assim até encontrarmos alguém que fosse nosso amigo e maníaco por Thrash que nem a gente, tocar legal tava em segundo plano (risos). Aí apareceu o Cambito, que também é vocalista de uma fudida banda chamada Slaver, e que se encaixou na banda inacreditavelmente bem. O cara é gente fina demais, topa qualquer furada, não tem frescura e não tem nenhum resquício de Rock Star, que é uma coisa que a gente abomina. Então somos um quarteto novamente.

08. “The Plague Never Dies” e “The Plague Returns”. Há ligação entre as músicas? Qual seria?
Pedro Poney Ret:
Uma é continuação da outra. As duas falam sobre coisas e sentimentos bastante íntimos do Violator, mas escritos em forma de metáforas da “praga”. A Praga também é uma metáfora para o espírito Thrasheiro, que se depender da gente, nunca vai morrer.

09. Percebemos uma grande evolução entre o Violent Mosh, os bônus deste split e Chemical Assault, tanto nas composições como na produção. Como a Violator avalia estas diferenças?
Pedro Poney Ret:
Avalio como um caminho bastante natural. Fomos tocando melhor nossos instrumentos, tendo mais referências sonoras, de tanto tocar em lugar tosco, aprendemos a mexer melhor com equipamentos e por aí vai. Espero que a gente possa continuar crescendo como banda nesse sentido, de fazer músicas cada vez mais legais, venenosas e criar um som original mesmo dentro de um estilo tão específico. Por outro lado, o Violent Mosh possui uma ingenuidade que é legal também.

10. Nos últimos cinco anos, bandas clássicas voltaram a ganhar espaço, por exemplo, Kreator e Exodus. Isto significa uma nova fase de ascensão do Thrash ou é apenas mais uma tática comercial dos selos?
Pedro Poney Ret:
Acho que uma coisa complementa a outra. É inegável que vivemos uma nova fase de ascensão do Thrash, e de moda Thrash. Isso faz com que os selos e bandas interessados em fazer grana, o que pra mim não tem nada a ver com underground, vão tentar capitalizar em cima disso. Acho que não é uma coisa que vai durar muito. Até porque é difícil encontrar um disco de uma banda velha que voltou que tenha o mesmo sentimento de uma banda nova que está fazendo isso por paixão, como o Blasthrash, por exemplo. Esse tipo de coisa reflete no som e é claramente perceptível. Dá pra sacar quando é forçado e quando foi feito com vontade.

11. Há algum tempo, morar fora do eixo Rio de Janeiro – São Paulo – Minas Gerais era condenação ao esquecimento. Atualmente, como vocês vêem a dependência dos grandes centros?
Pedro Poney Ret:
Eu não vejo dependência alguma. Somos de Brasília, gostamos muito daqui, ajudamos a construir uma cena aqui, nosso selo é daqui e só precisamos ir a São Paulo pra tocar e ver uns amigos. Não acho que essa lógica de grandes centros funcione no underground, como pode funcionar em outros meios musicais ou empresariais, sei lá.

12. Dos álbuns nacionais mais elogiados pela mídia especializada em 2007, vocês e Bywar, bandas que mantém a tradição oitentista, estão se destacando. Isto é um reflexo da carência do público pelas vertentes mais tradicionais do Metal?
Pedro Poney Ret:
Provavelmente é isso mesmo, um pessoal que, como nós, foi criado no auge do New Metal e se interessa por algo que seja feito com mais substância e paixão. De qualquer maneira, quem gosta de Thrash Metal Old School tem motivos de sobra pra ficar feliz desde os primeiros anos dessa década. E pô, o disco do Bywar foi elogiado porque é um puta disco! Tem muita coisa aí que é Thrash e é bem porcaria. Não é só porque algo é “old school” que imediatamente é legal.

13. Vocês chegaram a gravar “Massacre”, da clássica Taurus. Qual a importância desta banda para o cenário nacional? A negociação dos direitos autorais foi tranqüila ou houve empecilhos?
Pedro Poney Ret:
Foi super tranqüila. A Kill Again conseguiu achar os caras, isso foi antes da banda voltar, e eles liberaram numa boa. É legal que a gente gravou o Taurus a nossa maneira, mais rápido e palhetado, eu gostei bastante.

14. Regravações de músicas antigas são interessantes, pois os atuais recursos de estúdio possibilitam uma melhor produção. Há possibilidade de mais alguns covers em álbuns futuros? Quais seriam?
Pedro Poney Ret:
Eu não saberia dizer, acredito que sim. Só não faço idéia de que banda. A gente vive brincando que vai mandar um cover do DFC, seria legal (risos).

15. Muitas vezes o público não prestigia as bandas locais, dando mais valor ao que vem de fora. Como é a aceitação da Violator em Brasília?
Pedro Poney Ret:
A recepção aqui em Brasília é muito boa, muito boa mesmo. Na verdade, Brasília é o nosso lugar favorito para tocar em toda a América do Sul. É um clima muito bom, com pessoas se divertindo sem querer fingir o que não são e existe uma união muito forte entre bandas de Thrash Metal, Death Metal Old School e todo o pessoal do Hardcore e Punk. Brasília está vivendo um momento muito legal e fico muito feliz em saber que de alguma forma o Violator ajudou a construir isso. Uma coisa que acho que faz a diferença é que nós não nos vemos como “banda” enquanto os outros são o “público”, aqui somos todos iguais, membros de uma mesma cena, que partilham uma mesma comunidade. A gente vai a shows e participa produtivamente do undeground com programas de rádio, organização de shows, elaboração de zines e coisas do tipo, acho que esse tipo de coisa faz bastante diferença. Como diria o Lethal Aggression, se você quiser uma cena, você tem que fazer uma cena. Tenho muita raiva daquelas pessoas de bandas que vivem reclamando das coisas na sua cidade, mas só aparecem em shows para tocar e vão embora. A vivência underground é que cria uma cena bacana, consciente e divertida.

16. Despedimo - nos agradecendo pelas respostas, lembrando que ficamos gratos em receber materiais de qualidade como o de vocês. Desejamos vida longa aos Violators e deixamos espaço aberto para considerações finais.
Pedro Poney Ret:
Muito obrigado a vocês do All The Bangers. Quem sabe a gente se veja em breve tocando em algum buraco aí no sul. Obrigado também a todo mundo que sempre apoiou os Violas com amizade e sem inveja. Valeu! UFT!
 
Home Page Oficial: www.violatorthrash.com
 
Por Cristiano "Frank" Gonçalves
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