Gravou, regravou, demorou a sair, mas valeu a pena. Assim foi a longa trajetória da Hazy Hamlet, uma das bandas mais honestas do cenário sulista (por que não nacional?), para lançar “Forging Metal”, primeiro álbum. Arthur Migotto (vocal) nos contou tudo o que ocorreu após o lançamento de “Chrome Heart” (EP Virtual), incluindo o “quase” término das atividades. Confira as respostas cedidas e não perca tempo para conhecer este material.

 
01. Seria injusto começar a perguntar sem elogiar “Forging Metal”, certamente um dos melhores trabalhos de 2009. Parabéns! Partindo ao que interessa, seis anos sem lançar algo concreto. O que ocasionou a demora?
Arthur:
Poxa, antes de mais nada, muito obrigado por um elogio deste porte! Isso definitivamente não era esperado! Bom, Frank, são tantas coisas que deram errado que é até difícil de explicar. Primeiramente, logo após lançarmos o single “Chrome Heart”, acredito que em fevereiro de 2005, entramos no mesmo estúdio para gravar a bateria de “Forging Metal”. Como todos trabalhavam ou estudavam, só podíamos gravar nos horários vagos, levando muito mais tempo do que o usual. Ocorre que ao ouvirmos os resultados da bateria, ficamos muito insatisfeitos. Marcamos de gravá-la de novo, mas o baterista sofreu um acidente doméstico resultando numa lesão no calcâneo. Tivemos que esperar sua recuperação para então regravar a bateria de todas músicas. Quando chegou a vez de nosso baixista, outro acidente, agora com um dedo fraturado e mão imobilizada. Como queríamos fazer na ordem que já havíamos estipulado aguardamos mais um tempo, para então gravarmos. Após isso, no dia em que fomos testar os timbres de guitarra no estúdio, uma oscilação de energia acabou queimando várias válvulas dos amplificadores do Julio. Outra pausa para aguardar as malditas encomendadas chegarem, e então gravarmos a guitarra... Enfim, tudo dava errado. Fora isso, tivemos problemas para conseguir os dados sobre aquisição dos códigos ISRC e EAN, na mixagem, e problemas com a fábrica de prensagem. Nada foi fácil para o Hazy Hamlet!

02. Sei que o álbum começou a ser gravado há tempos e vocês tiveram problemas com o proprietário do estúdio e produtor. O que houve?
Arthur:
Um dos grandes problemas é que já não tínhamos muitos horários pra gravarmos, e ainda o dono do estúdio, frequentador de uma certa igreja, passava todos seus irmãos a gravarem na nossa frente, pra fazer uma moral, levando uma eternidade. Além disso, houve muitas mentiras, tanto sobre seus compromissos, quanto aos prazos e resultado do trabalho. Ele possui um certo nome em nossa cidade e muita lábia, então confiamos nele. Entretanto, quando estranhávamos algum som ou achávamos um defeito e nos oferecíamos para refazer aquele take, ele apenas dizia que na mixagem tudo ia ficar perfeito. Ouvimos isso inúmeras vezes, e no fim descobrimos que aquilo não passava de mentira. Não precisava ser especialista pra ver o tanto de defeitos presentes na captação. Com mais mentiras sobre o prazo do início da mixagem, resolvemos abandonar o barco, corrigirmos e terminarmos todo o trabalho sozinhos.

03. É impressão minha ou vocês começaram uma produção independente e do “zero”? Como surgiu a idéia?
Arthur:
Isso mesmo. Analisamos inúmeros trabalhos de bandas nacionais e internacionais que não tinham o suporte das gravadoras gigantes conhecidas. Com essa análise e um determinado som em mente, estipulamos um certo nível de qualidade como meta. Queríamos um som que expressasse a paixão que temos pelo Rock e Metal, típica do underground, com o máximo de profissionalismo que nossos esforços pudessem conquistar. Vimos que sozinhos e com muito trabalho conseguiríamos algo próximo de nossa meta, com a grande vantagem de tudo sair ao nosso gosto. Os problemas com o estúdio foram apenas o empurrãozinho que precisávamos para decidirmos fazer tudo sozinhos.

04. Vocês tinham experiência com estúdios ou aprenderam durante a concretização do “Forging Metal”? Estão satisfeitos com o resultado?
Arthur:
Não, a única experiência que tínhamos era a da gravação das demos, mas nada sobre produção. Só que isso é algo que sempre gostamos e nos interessamos, então fomos atrás de artigos, revistas, livros, vasculhamos fóruns e adquirimos muita informação. Sem tomar isso tudo como regra, na mixagem ainda experimentamos muita coisa, tanto da mixagem em si quanto sobre efeitos. Confesso que após tantas semanas trabalhando em cima do som ficamos exaustos, e apesar de acharmos que estava legal, não estávamos 100% convencidos. Fizemos a master assim mesmo e enviamos para a prensagem em Manaus, e não escutamos mais o som até chegarem as caixas com os CDs! Levamos o maior susto foi é com a receptividade do disco! Apesar de sempre que o ouvimos acharmos que algo poderia estar melhor, temos recebido muitos elogios, todos têm gostado muito! E se estão gostando, é claro que estamos satisfeitos! Que mais poderíamos pedir?

05. Após o lançamento de “Revelation”, o guitarrista Cristiano não fez mais parte da Hazy Hamlet. O que causou a saída dele? Não pensaram em outro substituto?
Arthur:
O Cristiano é uma ótima figura, e traz um clima bom onde quer que ele esteja! Ocorre que ele tem uma pegada um pouco diferente da do resto da banda, um pouco mais virtuosa, absolutamente técnica, e ele já estava sentindo essa diferença. Em seguida veio a notícia de um problema sério do coração, e ele decidiu que já que teria de se afastar para fazer a cirurgia, deveria aproveitar aquele momento e se desligar definitivamente do grupo. Foi uma decisão pessoal. Felizmente tudo deu certo com a operação, e com toda sua energia positiva ele se recuperou muito bem e rápido. Hoje ele está tranquilo estudando e trabalhando com música, e é ótimo no que faz. Sobre um substituto, até chegamos a cogitar o assunto, mas chegamos à conclusão que não queríamos mais o entra-e-sai de guitarristas. Fizemos uns testes adaptando as músicas para uma guitarra ao vivo, ensaiamos e ficamos muito satisfeitos. Pensamos que se tantas bandas grandes têm uma guitarra só, por que não poderíamos? E tudo se tornou mais fácil depois disso, desde as decisões até as viagens da banda.

06. Durante as gravações do debut, Hermano saiu e o posto foi assumido por Cadu. O que causou a saída e como chegaram no novo membro? No CD, quem gravou a bateria?
Arthur:
Isso foi um enorme susto pra banda! Já estávamos terminando a mixagem e indo atrás dos dados burocráticos para a fabricação do CD, quando o Hermano anunciou sua saída. Ele passava por uma situação difícil. Recém-formado e com uma nova empresa pra tocar, a segunda criança recém-nascida pra criar, o retorno ao esporte (karatê), era muita coisa, muita pressão, e ele acabou deixando o posto de baterista pra se dedicar melhor à família e à vida. Felizmente tínhamos um amigo muito próximo que tocava bateria - o Cadu. Sua pegada e suas influências são muito vintage, tem uma sonoridade tradicional, bem na linha para onde o Hazy está direcionando as novas músicas. Além disso, na época ele estava tocando em um projeto de Hard Rock setentista com o Fabio (B) e o Julio (G), já havia viajado com o Hazy Hamlet, vivia no nosso estúdio curtindo conosco e presenciando o ensaio. Convidá-lo pra banda foi algo automático. Quando marcamos um teste nos surpreendemos, pois ele já sabia tocar quase todas as músicas apenas de observar-nos, o que tornou o processo de adaptação muito rápido! O problema é que a entrada dele justo naquele momento nos criou um impasse: ou regravávamos toda bateria com sua pegada e seus arranjos – o que seria muito injusto com todo o sangue que o Hermano havia dado pela banda nos anos anteriores – ou mantínhamos o Hermano como baterista no CD e na divulgação–o que seria injusto com o Cadu, afinal se não fosse por sua entrada e sua dedicação no momento exato, é muito provável que face a tantas dificuldades o Hazy Hamlet tivesse encerrado suas atividades. Optamos por deixar a gravação do Hermano, divulgar o Cadu Madera como baterista oficial no disco, e incluir uma página de homenagem ao Hermano no encarte, junto a uma nota explicando sua saída. Esse disco deve ser um dos únicos com duas páginas de perfil para baterista: uma para o atual e outra para o ex! Mas o Hermano é nosso brother, e participou inclusive do lançamento do disco tocando duas músicas!

07. O lançamento independente foi opção ou falta de apoio? É vantagem ter um selo ou é melhor a banda cuidar da divulgação?
Arthur:
Eu diria que foi um pouco dos dois. Quando gravamos as demos, enviamos para vários selos e gravadoras, mas obtivemos as mais variadas respostas. Algumas simplesmente não responderam, algumas disseram que o estilo que queriam trabalhar era diferente, outras que já estavam com muitos artistas naquele momento, e umas ainda nos sugeriram que quando tivéssemos tudo pronto para lançarmos que os procurássemos! Ou seja, nós trabalhamos, eles lançam! Além disso, temos vários amigos de bandas que realizavam trabalhos com selos e gravadoras bem conceituados nacionalmente, e nos deixaram inteirados de toda a sujeira que rola quando o assunto é dinheiro. Achamos aquilo um absurdo e resolvemos ir atrás de tudo que precisávamos para realizar o lançamento independente. Obviamente não foi fácil. Queríamos que o trabalho fosse idêntico ao de uma gravadora, mas feito por nós mesmos. E muitas vezes nos deparamos com o fato de não sabermos onde encontrar algumas informações, e nesse caso aparecia o protecionismo, ninguém quer ajudar ninguém. Enfim o disco saiu, e estamos muito satisfeitos, mas há um longo trabalho a realizarmos agora, de divulgação e distribuição. Infelizmente não há interesse real (fora do discurso hipócrita) em bandas independentes. Metade dos sites nacionais sequer divulgaram a nota de lançamento do disco, que julgo seja uma informação importante e que encaminhamos a todos, enquanto divulga-se qualquer peido de integrante de banda de gravadora grande. Ser independente não nos faz soar pior ou melhor, apenas torna as coisas mais difíceis, e o apoio da mídia é essencial. Mas continuaremos batalhando. Se recebermos uma proposta de alguém que se mostre sinceramente interessado e apaixonado pelo Rock/Metal, obviamente consideraremos trabalharmos juntos. Caso contrário, continuaremos a trilhar nosso caminho sozinhos.

08. Vocês tocaram em Santa Catarina algumas vezes, mas em uma delas, o organizador do evento não cumpriu com o prometido. Especificamente, o que houve?
Arthur:
Você escolheu bem as perguntas pra obter respostas longas, não é mesmo (risos)? Bem, o Hazy é uma banda que tenta caminhar pelo underground de forma profissional, sem pender pro lado do amadorismo nem do comercialismo. Nós tocamos simplesmente porque amamos o Heavy Metal e não porque achamos que vamos ganhar dinheiro ou fama com isso. Não acreditamos nisso nos dias de hoje. Temos nossas profissões pra sobreviver, e o Metal para viver. Apenas queremos ser reconhecidos e respeitados pelo trabalho sério que fazemos. Pois bem, sempre que fechamos a participação num evento, acertamos os termos com o promoter, como qualquer outro grupo. O show que você citou ocorreu em uma casa bem reconhecida na rodovia de entrada para Florianópolis. Naquela ocasião o organizador havia prometido um determinado equipamento, um determinado horário para o evento, alimentação e uma hospedagem qualquer – necessária pelo fato de termos viajado de carro uma distância de 720 km, aproximadamente. Chegando lá, a primeira coisa que pudemos constatar é que o equipamento não era nada do que havia sido prometido, e sim um equipamento sucateado. Em seguida começamos a ser hostilizados por uma banda local que se acha tão grande a ponto de ter um roadie que acende o cigarro na boca de um integrante o show inteiro, enquanto serve o seu uisquinho! Além disso, fomos informados pelo organizador que não haveria refeição, e o evento além de começar muito mais tarde que o esperado, teve a ordem das bandas que já estava combinada toda modificada. Ao final do evento, procuramos pelo organizador para sabermos da hospedagem e recebermos o custo da viagem, como combinado, e então tivemos uma ingrata surpresa: o indivíduo havia sumido. Um funcionário da casa apenas nos avisou que ele havia deixado o local há um tempo, e nos entregou o que ele havia pedido - uns trocados que mal davam um quinto das despesas com combustível! Tentamos contato por telefone, mas ele não respondeu. Umas sete horas da manhã, famintos e exaustos, arrumamos nosso equipamento na carretinha e fomos os últimos a deixar a casa de shows, quase expulsos pelo dono do local, que nada tinha a ver com o assunto, e estava furioso por ainda estarmos ali. Sem grana para dormirmos em algum lugar, fomos obrigados a pegar a estrada direto pra casa, e com o cansaço batendo, o Julio que estava dirigindo mal conseguia manter o carro em linha reta. Tivemos que parar num posto para que ele repousasse um pouco no carro e assumimos todo o prejuízo de alimentação e combustível em um cartão de crédito. Foi uma viagem tão desgastante e frustrante que ficamos semanas sem nos vermos, e a banda quase acabou por acharmos que o sacrifício que fazíamos para tocar o som que curtimos não valia a pena.

09. Mesmo no Metal, há modismos separados por época. Na metade dos anos 90 foi a vez do Melodic. No final da mesma década, do Gothic. Agora estamos em uma fase de ascensão do Thrash. Isto é prejudicial ao Heavy Metal ou indiferente?
Arthur:
Isso depende do ponto de vista. O Rock viveu nos anos 70 uma fase absurdamente livre e criativa. Foi da influência desse som que surgiu o que foi chamado de Heavy Metal, na virada dos anos 80. Esse Heavy Metal raiz evoluiu e se dividiu, dando origem a todos os estilos primários: Hard, Heavy, Thrash, Death e o Power alemão. Os anos 80 foram a década de criação dessas linhas, e tudo que poderia ser criado de bom e com uma pegada que remetesse ao Rock, com atitude, foi realizado nessa época. O que tinha que ser inventado de bom já o havia sido, e ponto final. Pra mim nada desses sons era moda, e sim criação, tendências verdadeiras. Foi de modificações a esses subestilos que surgiram zilhões de outros rótulos criados nos anos 90. Misturaram o Heavy com inúmeras frescuras, substituíram o sintetizador analógico por tecladinhos, colocaram peso demais nas guitarras e esqueceram da origem no Rock And Roll. Bandas de Atmospheric Gothic Symphonic Melodic Doom Metal surgiram por todo lado, e os termos Thrash e Power Metal foram completamente deturpados. Isso foi culpa da mídia, que apoiou essas invenções e misturas como algo original, motivou toda uma ascensão de um mercado pseudo-metálico faminto por dinheiro e acabou jogando pás de terra sobre o Metal como conhecíamos. Isso pra mim era moda, e não é à toa que muitos chegaram a dizer que o Metal havia morrido. Já o que vejo hoje, não consigo enxergar como moda. É claro, estamos vivendo sim uma explosão de bandas de Thrash. Mas é o Thrash como havia sido feito no passado, com toda velocidade, rifferama e atitude quase Punk que o haviam construído. Veja o Violator ou o Hell Bullet! Nós mesmos temos trazido à tona nossas influências do Classic Metal raiz, de quando o som era determinado Heavy Metal, mas os refrãos gritavam “We Rock”, “Rock Hard Ride Free” ou “Rock Me Until I Die”, e vocês poderão ver isso nas músicas que estamos fazendo para o próximo disco. No MySpace você encontra bandas com um som similar ao da NWOBHM, como o maravilhoso Powervice, da Holanda, e bandas tocando Hard 70! Isso tudo não é moda. Pra mim, pessoalmente, é uma nova geração que cansou da frescura dos últimos anos e está se esforçando para resgatar o bom e velho Rock/Metal do passado – e isso é ótimo.

10. Agradecemos pelas respostas e deixamos o espaço aberto para as considerações finais. Grande abraço e mais uma vez, parabéns pelo debut. Desejo reconhecimento nesta longa e dura jornada.
Arthur:
Nós só temos a agradecer. Agradecer a vocês do All The Bangers por esse espaço para mostrarmos um pouco de nossa história e de nossas idéias. Agradecer humildemente pelo seu enorme reconhecimento ao nosso trabalho. Agradecer a todos aqueles que nos apoiaram e motivaram tanto durante esses anos terríveis que passamos, tanto bangers quanto pessoas próximas e colegas de outras bandas. E finalmente, dizer que foi uma honra para nós conceder esta entrevista, e que esperamos que o público curta os sons do disco tanto quanto estamos curtindo tocá-los. Um enorme abraço a todos, e continuem apoiando o Metal independente!!
 
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Por Cristiano "Frank" Gonçalves
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