Mais de duas décadas de estrada e fidelidade ao Death Metal. Isto simplifica a Corpse Grinder, que recém lançou o terceiro álbum e já prepara uma coletânea regravada, prevista para 2008. Conversamos com Júnior (guitarra e vocal), que nos contou sobre as dificuldades em se formar uma banda nos anos 80 e numa cidade de interior, além de como sobreviver aos diferentes modismos que a mídia nos empurrou nos últimos anos.

 
01. Hail Death Metalers, como está este período pós - lançamento do “Hail To Death Metal Legion”?
Junior:
Estamos à todo gás nos ensaios para os shows que estão surgindo e acabamos de sair do estúdio novamente. Este ano foi um recorde para nós, pois gravamos dois álbuns, o “Hail To Death Metal Legion” em março, que foi lançado dia 10 de julho, e o mais recente, em dezembro de 2007, que vamos começar este ano com as mixagens deste novo álbum, que na verdade de novo terá só a data de lançamento, porque se trata de um CD só de músicas antigas regravadas, das demos e dos CDs que lançamos. Este será um álbum de comemoração de 20 anos de Corpse Grinder. Este período pós lançamento do “Hail To Death Metal Legion” não poderia ser melhor, pois estamos muito satisfeitos com as resenhas deste novo álbum e na expectativa do lançamento de mais um álbum, que talvez será duplo. Tem surgido bons shows, então eu acho que estamos vivendo um grande momento!

02. Vocês são de Minas Gerais, estado que já teve um cenário underground fortíssimo. Como está atualmente?
Junior:
Realmente Minas teve um cenário fortíssimo, principalmente em BH no final dos anos 80 e início dos 90 com Sepultura, Sarcófago, Chakal, Mutilator e outros. Depois que estas acabaram ou mudaram de rumo a cena esfriou um pouco, mais Minas Gerais sempre teve boas bandas e atualmente com a volta de bandas como Chakal e Holocausto e mais muitas bandas novas bastante competentes e realmente pesadas, que estão surgindo, a tendência é melhorar.

03. Percebemos que, desde 1987, a Corpse Grinder gravou seis demos, porém, o debut só saiu em 2001. Qual o motivo da demora?
Junior:
Não tem como apontar um só motivo, porque são vários. Em 1987, quando começamos os primeiros ensaios, as únicas pessoas que curtiam Metal aqui em nossa cidade (Machado) eram somente os integrantes da banda, e também não conhecíamos ninguém que curtia Metal aqui e nem nas cidades vizinhas. A falta de informação era grande naquela época e os sons que ouvíamos e nos influenciávamos, eram conseguidos através de trocas de fitas K - 7 que fazíamos pelo correio. Outra dificuldade também era a falta de instrumentos, de equipamentos descentes para ensaiar e sem contar a falta de técnica e de conhecimento, para tocar e usar corretamente os poucos equipamentos que tínhamos. As coisas foram melhorando graças a nossa força de vontade, de interesse e disposição para correr atrás de informações e conhecimentos, que nos fariam crescer como banda e como headbangers. Durante esta caminhada, muitos desistiram. As primeiras demos foram gravadas de modo bem caseiro e só conseguimos uma gravação melhor na demo 92, quando um amigo nosso gravou nosso som na aparelhagem de uma casa noturna e conseguimos uma demo com mais qualidade e altura que a maioria das demos de outras bandas, que estavam sendo lançadas naquela época. Para você ter uma idéia, nós nunca imaginávamos irmos para um estúdio, porque era muito caro. A primeira vez que fomos para um estúdio foi em 95, quando gravamos 4 músicas para o CD coletânea (3 way) “Death Or Glory vol 2” e não ficou nada barato. Depois deste cd achamos que logo lançaríamos o debut, mas este atrasou um ano para ser lançado e o lançamento se deu bem quando o Black Metal estava estourando na mídia underground, por causa das atrocidades das bandas norueguesas, então este CD teve pouco destaque, tanto que as outras duas bandas que participaram com nós, o Blessed e o Scrupulous, acabaram alguns anos depois do lançamento, mas nós continuamos na luta, gravamos mais uma demo em 98 em um estúdio mais barato e no ano seguinte tocamos em um grande festival ao ar livre, que foi gravado e acabamos lançando como demo ao vivo. Só em 2000, depois de muito ensaio e economizar uma grana, é que finalmente fomos para o estúdio lançar o nosso tão sonhado debut, que foi lançado em janeiro de 2001.
Ser uma banda de Death Metal de uma cidade do interior no final da década de 80 não era nada fácil, era bem diferente das bandas de hoje que às vezes já lançam o debut CD de uma vez, sem gravar demo nenhuma. Isto em termos de qualidade sonora é muito bom, é bem mais profissional, mais não existe a mesma luta que as bandas tinham antigamente e, conseqüentemente, estas acabam por não valorizar tanto o underground e o verdadeiro Metal.

04. Da primeira demo até o terceiro álbum, quais as maiores mudanças na sonoridade?
Junior:
A maior mudança em nosso som ocorreu bem no início. Nas duas primeiras demos, “Necropsy” (90) e “Peace?” (91), nosso som era uma mistura de Death Metal, de Hardcore e Grindcore, já na terceira demo, “Sick Entrails Of Humanity” (92), o nosso som se tornou um Death Metal básico e daí por diante nós fomos melhorando as produções e a nossa técnica a cada lançamento, sempre evoluindo dentro do Death Metal. Atualmente, apesar de nosso som estar bem mais técnico, rápido e nós tocarmos com mais facilidade e segurança, ainda temos muito o que aprender. Queremos sempre melhorar, mas sempre tocando Death Metal!

05. Músicas das demos foram utilizadas nos álbuns ou cada trabalho é feito de composições inéditas?
Junior:
No primeiro álbum, “Persistence”, nós utilizamos 4 músicas que já haviam sido gravadas em demos e as outras 4 foram feitas para o CD, já o segundo álbum, “Celebration Of Hate”, e o terceiro, “Hail To Death Metal Legion”, são compostos somente de músicas inéditas.

06. Quando vocês começaram, quais foram as influências? E hoje, ainda são as mesmas?
Junior:
Como já disse anteriormente, no início, até 1991, nos tínhamos influências de Hardcore e Grindcore, nosso som era um Deathcore e nossas influências eram, Napalm Death, Hellhammer, Repulsion, Death, Massacre, Cryptic Slaughter, Doom, Unseen Terror, Lethal Aggression, Extreme Noise Terror, Septic Death e outros. A partir da demo 92, nós acertamos o direcionamento da nossa música, que partiu somente para o lado Death Metal e as influências de HC e Grind sumiram do nosso som.
Hoje eu cito como nossas principais influências: Death (dos 2 primeiros álbuns), Massacre (USA), Autopsy, Benediction e Bolt Thrower. Estas eu creio que são as que mais nos influenciamos, porque estão entre as bandas que mais gostamos. Nós ainda ouvimos HC, Grind e também outros estilos de Metal, mas não nos influenciamos, porque eu acho que depois de tanto tempo tocando junto, mesmo com as influências que eu citei, nosso som já adquiriu uma identidade própria.

07. Vocês nunca cantaram em português? Quais as temáticas abordadas nas letras?
Junior:
Nós nunca cantamos em português, nem nos ensaios. Nós não temos nada contra nossa língua e atualmente estamos vendo surgir excelentes bandas de Metal cantando em português, mas no nosso caso eu nunca usei nossa língua natal, porque as bandas que eu idolatro desde 1983, quando comprei meu primeiro disco de Heavy Metal, cantam em inglês. Em 1985 quando arrumamos umas demos ultra mal gravadas do Death, Massacre e Morbid Angel, todas cantavam em inglês e aquilo despertou nosso interesse pelo Death Metal e achávamos que teria de ser em inglês, não teria como ser de outra maneira, mesmo tendo dificuldade de escrever e pronunciar. As outras bandas de Death Metal, Grind, Thrash, Black que íamos conhecendo com o passar do tempo, a maioria cantavam em inglês, então nunca passou por minha cabeça em cantar em português e os outros integrantes sempre concordaram comigo. Eu acho que cantar gutural e rápido em inglês é mais fácil do que em português, porque no inglês as palavras são menores.
Quanto às temáticas, no nosso novo álbum abordamos vários assuntos, a faixa título por exemplo é uma homenagem aos verdadeiros headbangers e as grandes bandas de Death Metal, que nunca fraquejaram e inspiraram a nossa luta no underground.
“I Despise The Human Race” é uma crítica a espécie mais peçonhenta do mundo: a raça humana. “Sinister Winged Minstrel” é sobre o corvo, mostrado como um mensageiro da morte, bem no estilo filme de terror. “Necrofragments On The Ocean Of Blood” faz um contraste da beleza da natureza, com o que ela pode causar quando revoltada. “When Death Calls” eu canto como se fosse a morte falando aos mortais, que não esquecerei de ninguém. “Lady Of The Graves” é sobre as histórias da Maria do Cemitério, única coveira do mundo, que é coveira do cemitério de nossa cidade. “Imminent War” é sobre as guerras no oriente médio que nunca acabam, portanto, nossa temática no novo álbum é bem variada. No “Celebration Of Hate”, a maioria das letras são atacando as religiões, que através de fanatismo, ignorância, aliadas a interesses políticos e econômicos, são causadoras de várias desgraças em nosso planeta. No “Persistence”, as temáticas abordadas também são variadas, são basicamente protestos contra várias imbecilidades praticadas pelo ser humano, que torna nosso mundo pior para os inocentes viverem.

08. Por estar há anos na estrada, a Corpse Grinder possui parâmetros para comparações. Quais as diferenças observadas entre os cenários dos anos 80 e o atual?
Junior:
Antigamente os fãs de Metal eram em menor quantidade, devido às dificuldades que o pessoal tinha para arrumar materiais de bandas, principalmente das gringas. O pessoal que curtia Metal era mais unido, porque além da união fazer a força da minoria, o pessoal trocava gravações e ficavam conhecendo mais sons diferentes e essa dificuldade para encontrar material fazia o pessoal valorizar mais uma fita K - 7 com uma gravação rara naquela época, do que um CD original hoje que se encontra em qualquer loja. Nos anos 80 o Underground era Underground mesmo! E quem quisesse arrumar som, tinha que correr atrás e para quem morava no interior, era pior ainda, o som só chegava pelos correios depois de muito tempo de espera. Para as bandas também não era diferente. Hoje tudo é mais fácil, por isso que parece que tem muito mais gente envolvida com o Metal, mas os que valorizam realmente são poucos. A coisa que você mais vê hoje em dia é moleque usando camiseta de banda de Metal, aí você pergunta para ele se ele tem algum disco daquela banda, que ele esta usando a camiseta, e aí ele responde: baixei algumas músicas na internet. Já camisetas, acha - se até em camelô, então esta facilidade faz com que o pessoal não valorize o Metal como antes.
Hoje em dia não tem mais união entre fãs e a união entre as bandas também não é a mesma. Mas com o tempo que temos de estrada, nós sabemos muito bem distinguir quem é real no meio desta grande multidão de Metaleiros.

09. A produção do novo material soa bem oitentista. Isto foi proposital? Há algo que fariam diferente?
Junior:
Não foi proposital, foi natural, porque 3 dos integrantes da banda são oitentistas e o mais novo, que não curtiu Metal nos anos 80 porque ainda era criança, tem o Metal oitentista na veia, por isso se adaptou tão bem ao som do Corpse Grinder.
Nós não gostamos de nada forçado, o resultado final deste novo material é fruto de nossa vivência no underground, sempre apreciando bandas de Old School Death Metal, que na sua maioria iniciaram suas carreiras nos anos 80.
Quanto se há algo que faríamos diferente, sempre, depois que gravamos, nós achamos alguma coisa que poderíamos fazer diferente, porque sempre surgem algumas idéias depois da gravação de um disco.

10. Qual o segredo para estar no cenário há mais de 20 anos e não se contaminar com os modismos?
Junior:
Em primeiro lugar, é gostar realmente de tocar e ouvir o verdadeiro metal e, em segundo, é saber reconhecer o que é moda passageira e o que é realmente Metal de respeito. Durante esses 20 anos de estrada nós vimos várias modas surgirem e dominarem totalmente a mídia especializada e depois de um certo tempo, nem se houve mais falar naquilo. Nós vimos várias merdas surgirem e a mídia dizer que aquilo é o futuro do Rock e do Metal, coisas como Grunge, Funk On Metal, Nu Metal ou New Metal, eu sei lá como se fala o nome dessas bostas, eu só sei que já acabaram e o verdadeiro Metal está vivo, porque tem verdadeiros seguidores, mesmo que sejam poucos, mas são verdadeiros, já os que se diziam fãs dessas coisas que eu citei, já devem estar seguindo alguma outra moda que está pegando no momento.

11. Agradecemos pelas respostas e deixamos o espaço aberto para considerações finais. Grande abraço da equipe All the Bangers.
Junior:
Em nome do Corpse Grinder, sou eu quem agradece pela oportunidade desta entrevista e espero que minhas respostas sejam bem esclarecedoras a todos que lerem esta entrevista e se interessarem pelo som do Corpse Grinder.
Um grande abraço a todos da equipe All The Bangers! Valeu!!!
 
Home Page Oficial: www.myspace.com/corpsegrinderdeathmetal 
 
Por Cristiano "Frank" Gonçalves
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